Blog da célula – Foi por Amor – Grupo de comunhão.

Texto base: Jo 1:1-5; Cl 1:16

A caminhada cristã é recheada de desafios atrelados a nossa relação com o meio que nos envolve. É comum no evangelismo brasileiro acreditar-se que atingirmos uma “maturidade cristã” baseada no tempo que temos de conversão ao evangelho. É óbvio que se sairmos aos “quatro ventos” lançando tal problemática, a maior parte dos cristãos evangélicos teria de pronta resposta que tal pensamento, de fato, não prospera. Entretanto, o que vemos na prática é um comodismo cristão generalizado alicerçado em um ativismo religioso proveniente de uma teologia doente e regrada de lacunas. Mas como assim? Eu explico: nada mais comum que irmos à igreja aos domingos para “recarregar as baterias” para encarar a semana nesse mundão sem freio…  Dessa forma, escutamos um sermão ali outro aqui, alguns fidedignos às Escrituras, outros nem tanto. Às vezes, chegamos ao ponto de até priorizamos assuntos ou abordagens direcionadas ao suprimento de nosso desejo antropocêntrico(humano) e assim vamos formando a nossa teologia. Quando nos damos conta (pela misericórdia de Deus), em razão, da nossa negligência e falta de amor à Cruz do nosso Salvador, estamos teologicamente doentes, espiritualmente vazios e possuidores de fé deficitária. Essa questão é pesada e você pode até chegar a pensar que, talvez, seja exagerada, todavia, digo sem titubear que ela é sincera e muito real em nosso meio evangélico, portanto precisamos, de fato, refletir honestamente sobre isso.

Louvo a Deus por essa célula, na qual sua liderança, por inspiração dívida, decidiu nesse ano “aparar as arestas” para que a cada dia nossa fé possa ser ainda mais consolidada na pedra angular, que é Cristo.

Nesse sentido, caminhando um pouco mais na fé cristã e buscando uma maturidade verdadeira em Cristo, hoje vamos falar um pouco sobre mais uma doutrina fundamental a fé cristã genuína: O Senhorio de Cristo e suas implicações no engajamento cultural do cristão.

Aparentemente, reconhecer o Senhorio de Cristo sobre a igreja não é muito difícil para nós cristãos. A cosmovisão cristã ensina, de acordo com as Escrituras, que este mundo possui um Senhor e Rei, que arroga para si toda a soberania e domínio sobre toda a realidade existente.

Sobre o Senhorio de Cristo o pastor Paulo Simões (IPB- Salvador), aponta o seguinte:

 

Cristo dá significado a todo o passado, ele é o Senhor do presente e domina o futuro. Cristo foi constituído Senhor da História, já que todo o poder foi dado a ele. O Senhor recebeu o nome que está acima de todo nome. Diante do nome de Jesus. Todo joelho se dobrará e toda língua confessará que ele é Senhor e pai da glória (Mt 28.1S: Fp 2.10-11 • Cristo é, agora, o soberano sobre reis da terra (Ap 1.5) e, como tal, dirige os destinos das nações até o completo estabelecimento do seu reino. Jesus é o Cabeça da Igreja, que deve ser submissa ao seu líder. Ele exerce seu senhorio ajuntando, governando, santificando e prote­gendo a Igreja pela qual morreu (Ef 1.20-22; 5. 22-33). Cristo é o Rei e o Bom Pastor, cuja voz as ovelhas obedecem (Jo 10; l P e 2.25). Seu reino consiste de membros da Igreja Invisível, que ouvem a verdade (Jo 18.37), daqueles que desejam tornar todo pensamento cativo em obediência a Cristo (2Co 10.5). A Igreja é uma das mais importantes manifestações visíveis desse senhorio, que é tanto presente quanto futuro e jamais se extinguirá (Lc 1.33).

 

 

Embora, conforme o apontamento do pastor Paulo Simões, seja claro e bíblico o Senhorio de Cristo sobre a igreja.  É importante destacar um erro bastante recorrente por nós, até mesmo veteranos de igreja:

Cristo, plano B?

O pastor batista Jonas Madureira, em um sermão direcionado a jovens universitários, foi muito feliz em apontar que em uma apreensão equivocada, acabamos não reconhecendo o Senhorio de Cristo. Por que temos um entendimento equivocado, acabamos perdendo de vista a dimensão do seu significado e valor. Não são poucos que entendem a obra de Cristo como uma espécie de plano B de Deus, como uma espécie de “jeitinho brasileiro”. O plano A de Deus seria Adão. Essas pessoas dizem que o plano de Deus só seria perfeito se Adão tivesse sido “aprovado na prova”, ou seja, não tivesse pecado. Como Adão errou, o plano B de Deus entra em ação. Deus, então, “inventa Jesus” para resolver o problema do pecado.

Na verdade, o Filho sempre existiu (JO 1.1) o que torna esse pensamento totalmente anticristão. Jesus não foi criado e sim gerado na eternidade (o que é gerado tem a mesma essência do gerador), por isso ele é Deus. Não podemos atribuir temporalidade a um ser atemporal. Assim, de forma milagrosa, Ele se manifestou em nossa realidade existencialmente limitada. Ele não foi inventado para corrigir a separação da humanidade de Deus, de fato, por meio dEle todas as coisas foram criadas para o louvor de sua glória. Desse modo, biblicamente, podemos afirmar que Ele sempre existiu independemente da queda humana. Cristo não foi uma correção do projeto Divino (I Pe 1:19-21;Ap 13:8).

Adentrando no cerne de nosso estudo nos deparamos com um ponto ainda mais sensível para nós Cristãos: O Senhorio de Cristo de Cristo sobre o Universo.

Mais sensível por quê, já que as Escrituras nos diz que Ele soberano sobre todos os reis da terra ( AP 1:5)? É simples, afirmar o Senhorio de Cristo sobre o universo traz implicações práticas a nossa forma de relacionamento com o todo meio que nos envolve: a cultura.

 

Mas o que é cultura?

Segundo o antropólogo britânico não cristão Edward B. Taylor, cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Ou seja, as histórias, símbolos, estruturas de poder, estruturas organizacionais, sistemas de controle, rituais e rotinas de uma nação.

 

Infelizmente, a igreja brasileira, de uma forma geral, negligencia praticamente tudo que se refere à tradição. Não é questão de saudosismo, mas você parou para pensar que a igreja não nasceu em nossa geração?  Que nós não somos os primeiros a ler as Escrituras? Que muitas das dificuldades que enfrentamos hoje já foram enfrentadas por nossos santos irmãos no passado?

É necessária humildade de nossa parte se quisermos evitar desgastes e heresias já superadas no passado e procurarmos conhecer um pouco mais sobre a nossa própria história…

Sendo assim, como a igreja tem lidado com a cultura ao longo dos anos?Tal forma reflete o Senhorio de Cristo no universo?

  1. Richard Niebuhr (1894-1962), em seu livro Cristo e cultura ( disponível gratuitamente em http://www.monergismo.com/textos/cultura/Cristo_e_Cultura.pdf ) apontou cinco categorias de classificação do relacionamento entre o cristão e a cultura, as quais nos auxiliarão a compreender de que forma os cristãos têm  enfrentado questões sociais, éticas, políticas e econômicas ao longo da história, para que, dessa forma, possamos identificar a maneira mais Cristocêntrica de engajarmo-nos culturalmente em nossos dias.

Vamos então utilizar alguns pequenos resumos, feitos pelo pastor Franklin Ferreira no blog Voltemos ao Evangelho, de cada categoria apontada por Niebuhr:

 

  1. O cristão contra a cultura

Os que seguem esta corrente enfatizam que, diante da natureza decaída da criação, é necessário que se criem estruturas alternativas, e que estas sigam mais de perto o chamado radical do evangelho. Esta posição foi afirmada no Didaquê, na Primeira Epístola de Clemente, e nos escritos de Tertuliano (c.160–c.225) e dos anabatistas do século xvi, como Michael Sattler (c.1490–1527).

Resumidamente, a cultura é caída, má e demoníaca; rejeite tudo.

 

2. O cristão da cultura

Os ensinos do evangelho têm íntima relação com as estruturas culturais, num processo de acomodação a esta. Ou seja, toda e qualquer cultura é incorporada no cristianismo.

Apesar das objeções que são lançadas a esta posição, ela tem sido influente na história da igreja. Os ensinos de gnósticos do século III, Abelardo de Paris (1079–1142) e dos teólogos liberais do século XIX refletem esta posição. A igreja evangélica na Alemanha, por influência deste entendimento, trocou seu nome para Igreja do Reich e seus pregadores juraram obediência a Hitler.

O fundamentalismo americano acabou espelhando esta posição, afirmando os valores básicos da cultura dos Estados Unidos. Aqui no Brasil, se por um lado rejeitamos toda cultura local (o cristão contra a cultura), por outro acabamos abraçando a cultura americana (o cristão da cultura), como se ela fosse uma cultura cristã e achamos que uma cultura é intrinsicamente superior a outra.

3. O cristão acima da cultura

Este é o conceito católico, influenciado por Clemente de Alexandria (c.150–c.215) e Tomás de Aquino (1225–1274), que busca uma unidade entre o cristão e a cultura, onde toda a sociedade aparece hierarquizada. Na Idade Média o ensino eclesiástico alcançou quase todos os aspectos da sociedade: suas práticas religiosas formaram o calendário; seus rituais marcaram momentos importantes (batismo, confirmação, casamento, ordenação) e seus ensinamentos sustentavam crenças sobre moralidade, significado da vida e a vida após a morte. A igreja e sua mensagem são institucionalizadas e o que deveria ser condicionado culturalmente é absolutizado. Neste terceiro modelo, o que é levado não é o evangelho, mas uma cultura.

4. O cristão e a cultura em paradoxo

Posição comumente associada a Martinho Lutero (1483-1546) e Søren Kierkegaard (1813-1855). Esta posição mantém o entendimento bíblico da queda e da miséria do pecado, e o chamado para se lidar com a cultura. A relação do cristão com a cultura é marcada por uma tensão dinâmica entre a ira e a misericórdia.

Lutero enfatizou este tema com sua doutrina dos “dois reinos”: a mão esquerda, mundana, segura a espada do poder no mundo, enquanto a mão direita, celeste, segura a espada do Espírito, a Palavra de Deus. Não se pode tentar coagir a fé, nem se pode tentar acomodar a fé aos modos seculares de pensamento.

Um exemplo: espancamento feminino. A mulher deve processar o marido? Nesta visão paradoxal, como cristã, ela não deveria (pois o crente não leva outro ao tribunal secular), mas como cidadã, sim. Então, a mulher vive um conflito paradoxal.

5. O cristão como agente transformador da cultura

A cultura deve ser levada cativa ao senhorio de Cristo. Sem desconsiderar a queda e o pecado, mas enfatizando que, no princípio, a criação era boa, os que estão nesse grupo enfatizam que um dos objetivos da redenção é transformar a cultura. Sendo assim, por mais iníquas que sejam certas instituições, elas não estão fora do alcance da soberania de Deus. Ou seja, mesmo sabendo da queda, o cristão não abandona a cultura (o cristão contra a cultura), mas busca redimi-la, levá-la aos pés de Cristo.

Agostinho (354-430), João Calvino (1509-1564), John Wesley (1703-1791) e Abraham Kuyper (1837-1920) são alguns dos que entenderam que os cristãos são agentes de transformação da cultura, posição que é exposta nesta obra de Niebuhr. Em Apocalipse, vemos que Deus redime tanto a pessoa, como a diversidade cultural.

Nesta posição, não há divisão entre o sagrado e o profano – essa é uma dicotomia católica romana (a divisão sagrado/profano afirma que na igreja fazemos atividades sagradas e, no mundo, atividades profanas; ou seja, rezar, ser padre é algo sagrado, mas construir um prédio e ser um engenheiro são coisas profanas). A divisão bíblica é entre o que é santo e está em pecado; e que está em pecado deve ser santificado.

 

 

Conclusão

Indubitavelmente, olhando-se para as narrativas bíblicas e para a relação da igreja com a cultura ao longo de sua história, percebemos que a forma mais adequada de viver a doutrina do Senhorio de Cristo é procurando ser um agente transformador da sociedade.

É muito comum os cristãos evangélicos se tornarem uma espécie de gueto(subclasse) dentro de sociedade, dessa forma alienando-se de questões filosóficas, cientificas, artísticas, políticas, etc. No entanto para se cumprir o mandato cultural (Gn 1:28; 2:17), os cristãos devem compreender o alcance do Reino de Cristo. É completamente equivocado limitarmos o Senhorio de Cristos à igreja, certamente seu reino transcende toda a nossa realidade. (Cl 1:20; Ef 1:10). Nesse sentido, o não cristão pode até ignorar o reino de Cristo sobre todas as coisas (embora toda a sua capacidade venha também do Senhor), mas nós cristãos sabemos que todo o universo está debaixo da autoridade daquele que habita à destra do Pai e, portanto, devemos tornar seu Reino conhecido em todas as esferas da sociedade.

Mas como assim, já não fazemos isso propagando o evangelho nas igrejas e nos evangelismos?

Meus irmãos, ser um agente transformador da cultura não é frequentar cultos de segunda a segunda, isso tem outro nome: ativismo!

Ser um agente transformador da cultura é entender que o seu culto a Deus não é prestado somente na igreja ou em outras reuniões de cristãos, mas sim em todas as nossas relações existentes.

Ser um agente transformador da cultura é saber que TUDO o que fazemos deve ser para glória de Deus. Portanto devemos ser referência em tudo: ser um exímio pedreiro, médico, policial, escultor, professor, cientista, artista, advogado, servidor público, etc. (Cl 3:23; Ef 6: 7-8; ICo 15:58))

Não podemos entregar a filosofia, ciência, música, política aos não cristãos sob o pretexto de serem tarefas mundanas.

Já parou para pensar no tanto de igrejas evangélicas que possuímos em nossa cidade? Será que isso tem feito diferença em nosso meio? Será que estamos trazendo a luz e refletindo o rosto de Cristo em todas nossas relações sociais e até mesmos nas pequenas atividades ou estamos sendo envolvidos por toda perversidade corruptiva que assola esse mundo caído?

Certa vez eu ouvi algo assim: “O maior folheto evangelístico que você tem é você mesmo”. De fato, necessitamos sair de nossa zona de conforto e buscar um padrão de vida que reflita Cristo.

Nesse sentido, o pastor presbiteriano Paulo Simões, em seu blog, escreveu:

A palavra “cristão” está hoje longe de evocar imagem de pessoas virando o mundo de cabeça para baixo, transformando a cultura e levando cativas todas as propostas filosóficas aos pés da cruz. Por quê? Muito pelo contrário, a Igreja se encaixa tão confortavelmente neste mundo que não conseguimos mais ser vistos como um povo diferente.

 

 

Há uma frase muito famosa do teólogo holandês Abraham Kuyper que diz “Não há um único centímetro quadrado de todos os domínios da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo não clame ‘ é meu’!”

Que nós possamos viver em novidade de vida em Cristo dia após dia, proclamando o seu Senhorio sobre todo o universo além das quatro paredes da igreja! Amém.

 

 

Aprofunde mais sobre a doutrina do senhorio de Cristo lendo o artigo “Cristo é o seu Senhor?” de A. W. Pink no link abaixo:

Cristo é o seu Senhor?

Célula “Foi Por Amor”

14/04/2016

Denis Derkian

 

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